A MÍSTICA POÉTICA COMO REINVEÇÃO DA PRÓPIA VIDA OU A POESIA DE SI DE SANTA TEREZA DE ÁVILA - ALEX VILLAS BOAS




Resenha: VILLAS BOAS, Alex. A mística poética como reinvenção da própria vida ou a poesia de si em Santa Teresa de Ávila. In: PEDROSA-PÁDUA, Lúcia; CAMPOS, Mônica Baptista. (orgs.). Santa Teresa: mística para o nosso tempo. Rio de Janeiro: Reflexão, PUC-RJ, 2011. p. 161-185.

Resenha: VILLAS BOAS, Alex. A mística poética como reinvenção da própria vida ou a poesia de si em Santa Teresa de Ávila. In: PEDROSA-PÁDUA, Lúcia; CAMPOS, Mônica Baptista. (orgs.). Santa Teresa: mística para o nosso tempo. Rio de Janeiro: Reflexão, PUC-RJ, 2011. p. 161-185.

quarta-feira, 11 de março de 2015

            Com o fim de explicitar análises acerca da mística poética de Teresa de Jesus (1515-1582), adentramos as nuances expostas no trabalho de Villas Boas[1](2011). Precipuamente o autor, foco da atenção desta resenha, nos diz que a percepção é um ato simultaneamente afetivo e intelectivo, este ato se dá em um caminho de dupla via. De tal forma que, ora a intuição afetiva predispõe a intelecção da existência, sendo algo que permite enxergar a vida de outro modo. Portanto, este ato dispõe uma melhor compreensão ao encadeamento de fatos e escolhas vividas, confirmando ou, por outro modo, reavaliando as mesmas, na medida em que se caminha no peregrinar da existência.
             Nesse ínterim, destaca Villas Boas (2011) que a significação diz respeito à descoberta de sentido da própria vida, de um sentido que motive a própria existência lida na historicidade do ser – algo superior, de corpo e alma – e na integração afetiva que este sentido permite. De tal modo que as contradições vão sendo integradas e a capacidade de administrar conflitos vai se desenvolvendo como sabedoria que nasce da experiência, na busca do “ideal concreto” de vida. Portanto, é nesse processo que algo novo se manifesta: a poesia, que para além de um fenômeno literário, se apresenta como exteriorização de um processo interno, o qual denomina Villas Boas (2011) como a capacidade de reinventar a própria existência, ou mesmo sendo, a poesia de si.
            Logo, uma idéia senso comum de felicidade não é um constante objetivo a ser perseguido, mas a verdadeira felicidade é o efeito de uma vida que se realiza naquilo que lhe dá sentido e pode ser compartilhada, todavia sem alienar a responsabilidade única e intransferível de buscar realizar a própria existência. Destaca Villas Boas (2011) que a “meta” de felicidade não é uma exigência, mas corresponde apropriadamente aquilo que se pode oferecer ao mundo. Assim, de fato, Teresa de Ávila é poetisa enquanto forma de nomear sua experiência mística. Haja vista que, sua poesia escrita nada mais é que uma expressão da poética da existência, e portanto, necessariamente simbólica, ou ainda, sua capacidade de refazer-se como alguém para além dos condicionamentos circundantes.
            Com este propósito, a urgência de significar a vida é cada vez mais sentida, quer seja como auto-descoberta, quer seja como recusa a uma banalização das relações e um descompromisso social, assim como também a mercantilização do religioso, e outros aspectos que permeiam em questionamentos do sentido da vida. Desta forma, o processo de significação da vida de Teresa também pode nos dizer muito diante de uma cultura “moderna” e suas incapacidades de lidar com as frustrações presentes na vida. Ademais, o não saber lidar consigo, faz com que fiquemos enclausurados em nós mesmos, sem sequer descobrir-nos que a alteridade se dá como via de liberdade do “ensimesmamento”. Portanto, destaca Villas Boas (2011) que Santa Teresa é vislumbrada em seu trabalho na chave de um existencialismo cristão – termo referido ao teólogo Karl Rahner (1904-1984) no estudo de outro místico contemporâneo de Teresa, o Santo Inácio de Loyola (1491-1556).
            Como resultado, uma vez que Teresa não mais conseguia encontrar Deus como responsável pela ordem do mundo, visão prevalecente no período medievo; esta por outro lado, em um mundo já confuso buscou Deus em seu interior. De tal forma que, Teresa de Ávila também nos transpõe aos dramas da vida moderna. Logo, Teresa também leitora das Confissões de Santo Agostinho (-), livro que apresenta um discernimento da tentação como luta do coração em escolher qual o melhor caminho para trilhar em direção ao amor.
            Neste sentido, Villas Boas (2011) fala acerca de um pathos; ou seja, uma capacidade humana de interiorizar acontecimentos. Portanto, o pathosaproxima-se a experiência de enomorar-se, sendo uma identificação com aquilo que me provoca, e ao provocar-me dá um sentido de vida. Com efeito, este enamorar-se muda a percepção de vida, de modo que se passa a viver em razão dessa condição. Entretanto – bem ressalta Villas Boas (2011) – a identificação com aquilo que nos enamora pode carregar um coeficiente de ilusão, de modo que pode ser uma ilusão projetada daquilo que se quer convencer. No entanto, o verdadeiro enamorar-se implica auto-conhecimento de saber aquilo que o torna melhor como condição de saber o que se quer.
            Em proximidade, nesse sentido para Santo Agostinho, não é possível amar sem que haja ordenação daquilo que se ama com aquilo que realmente se é. Portanto, quando há essa ordenação do coração, o enamorar-se é um encontro revelador de sentido. Sob o mesmo ponto de vista em pathos, correlacionam-se a cultura helênica e a literatura bíblica. Nestes termos, Villas Boas (2011) utiliza o seguinte neologismo, enfocando uma patodiceia (pathos mais teodicéia) teresiana, na medida em que a mística poética de Teresa se afasta de uma formulação teórica abstrata, por costume tal abstração diante da tragédia, atribui sua causa a um certo “Deus sabe o que faz”; sendo que nesta teodicéia origina-se um cristianismo apático a vida e ao convívio social.
            Assim de fato, Teresa segue por outro caminho, e ao ouvir o coração como forma afetiva primordial da qual derivam-se todos os sentimentos de tipo superior, ali em sua interioridade afetiva é capaz de ser afeta no centro de sua alma por um Deus enamorado. Portanto, a poesia teresiana é a capacidade de simbolizar os movimentos da alma rumo a descoberta de sentido que se dá na descoberta de um enamoramento.
            Destaca também Villas Boas (2011) que os livros sempre marcaram Teresa de Ávila, permitindo-a ler a vida com mais profundidade. Por conseqüência, a sua “conversão” é a descoberta de um sentido profundo para se viver. Logo, o livro Confissões de Agostinho a toca profundamente. Sendo que a obra surge como ápice de um caminho que era alimentado também por outro livros, como as Cartas de São Jerônimo (-) e a Vida de Cristo de Ludolfo da Saxônia (-) – também obra marcante para Santo Inácio de Loyola. Logo, a partir de sua conversão, inicia um período de intensas experiências místicas que irão culminar com sua atividade de escritora e fundadora.
            Em suma, a reforma da Ordem do Carmelo e, na fundação da Ordem das Carmelitas Descalças, são, para Villas Boas (2011), nada mais do que o desdobramento da reforma da própria alma de Teresa. Ante tudo, destaca também que só pode haver poesia se houver enamoramento, e Santa Teresa é acima de tudo enamorada de Deus. Em vista disso, para compreendermos a obra de Teresa, faz-se necessário discernir como se dá as distinções entremeio das paixões na busca de uma razão enamorada, o qual imprime sentido à própria vida. Assim sendo, o recurso literário em Teresa é a metáfora, ou seja, a imagemcomo representação não mediada puramente pela razão, mas que se manifesta na consciência a partir de uma intuição inconsciente. Portanto, a imagem teresiana, por excelência, é o Castelo enquanto função simbólica.
            Ademais, destaca Villas Boas (2011) que cada morada constitui um tempo processual e um espaço experiencial, os quais criam condições de possibilidade de se conhecer e esclarecer a própria busca. Além disso, Santa Teres tem por mérito a minúcia de descrever esse processo de reinventar-se, e sabe que isto não se dá como evento, mas como processo. Conseqüentemente, o Casteloé uma relação entre a alma que nos conecta a Deus, e que no encontro amadurecido em direção ao matrimônio espiritual, passa a ser Morada de encontro com o Amado.
            Visto que, temos aqui a reinvenção de si como dotada de uma vida com sentido. E torna-se a viver por este sentido de vida com capacidade de resistência à patologia própria ou de outrem. Assevera Villas Boas (2011) que é uma “razão apaixonada” – logopatia – que não admite perder Aquele que lhe dá sentido à vida, e nisso se orienta seu sim e não. Como resultado, a acolhida de Deus é re-estruturadora, porque efetua uma nova forma de responder aos afetos (VILLAS BOAS, 2011, p. 175).
            Acrescenta-se a isso, o paradoxo enquanto linguagem, por excelência, mais apropriada ao Mistério. Tendo em vista que o paradoxo expressa com maior precisão o que uma lógica clássica não é capaz de expressar em sua linearidade, portanto a razão do coração enxerga para além da lógica convencional e se sustenta nas escolhas de sentido regidas por um logos maior. Além disso, mística e poesia se confundem enquanto nascem de um ouvir aquilo que a vida nos fala, sendo Teresa maestrina nestas questões (VILLAS BOAS, 2011, p. 175-176).
            De tal modo que em sua poesia paradoxal, Teresa revela a dinâmica do desejo, a qual contém a possibilidade de ilusão advinda da ansiedade de realizar o próprio desejo, o que por conseqüência interrompe a escuta interior. Destaca também Villas Boas (2011) que outro elemento fundamental da mística poética teresiana, enquanto processo de significação das mudanças internas, é a morteenquanto símbolo do que deve morrer para que se encontre a vida. Acrescenta-se a isso, que entre as inúmeras imagens que Teresa usa para simbolizar a alma noCastelo Interior, a que mais se aproxima à sua poética é a da lagarta no casulo, o qual precisa morrer em sua forma para nascer como borboletinha. Portanto, a alma identifica-se em Deus contemplando a densidade humana de Jesus Cristo, tendo como comportamento corresponder ao amor que lhe é dado. Acresce Villas Boas (2011) que morrer é dar o coração a Deus como sede das decisões, e se deixar conduzir na docilidade de suas moções internas, as quais vão formando a consciência no discernimento de um horizonte de sentido.
            Enfim, Teresa de Jesus, diferentemente de uma espiritualidade apática empreende uma paixão maior que provoca a percepção do belo além das ilusões que ludibriam. Na busca desta liberdade afetiva se permite dispor-se a serviço do outro. Ademais, é a poesia que permite uma sensibilidade perceptiva. Haja vista que a poesia não parte de uma discussão doutrinária; mas parte da experiência do ouvir o que esta por de trás. Do mesmo modo procede a mística, que enxerga Deus na densidade humana de Jesus, e percebe no comportamento divino conduzido pelo Espírito um comportamento capaz de conferir sentido à vida humana pela experiência do amor gratuito.
           Em suma, nessa experiência profundamente humanizadora pelo amor que afeta a percepção de vida o eu (como personificação de algo desumano) vai sendo desvelado e enfraquecido na sua influência fundida na ilusão do egoísmo. Sendo assim, Teresa fora ouvindo os movimento e mudança que a chamaram a decifrar o enigma da vida, até o momento em que, no vácuo da existência, ansiou romper com a surdez de uma religiosidade que caia na mesmice, deixando de ser reinvenção da vida. Vale ressaltar, para que a vida pudesse florescer em Teresa foi necessário que algo morresse. De tal modo, enfatiza Villas Boas (2011) que a poética de Santa Teresa é nada menos que a expressão externa da poesia de siinterna, que transborda de um “cristianismo interior” por ser significante e que provoca a pergunta pelo sentido em outros.
          Por fim, a poesia de si de Santa Teresa engendra um novo ethos com seuhabitar poeticamente. Assim, ao fundar a Ordem das Carmelitas Descalças, entende-se que, no engrandecimento da santidade, maior a comunicação que compartilha de sua experiência, pois não esconde para si. Tendo em vista que a contemplação é missionária, de modo que cada convento de sua ordem deveria ser um foco de luz pela experiência de Deus oferecida ali o alimento da vida missionária. Todavia, e de modo muito especial que para renascer, há que morrer.

Referência:

VILLAS BOAS, Alex. A mística poética como reinvenção da própria vida ou a poesia de si em Santa Teresa de Ávila. In: PEDROSA-PÁDUA, Lúcia; CAMPOS, Mônica Baptista. (orgs.). Santa Teresa: mística para o nosso tempo. Rio de Janeiro: Reflexão, PUC-RJ, 2011. p. 161-185.

Referências Imagens:

Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-hm96bAXjSOU/TqrMt1S7lbI/AAAAAAAAAgo/FGfyZbu8lfg/s1600/Alex+Villas+Boas.jpg>. Acesso em: 06 de mar. 2015.

Disponível em: <http://www.ataendi.com.br/wp-content/gallery/lancamento-site/lac_site6.jpg>. Acesso em: 06 de mar. 2015.

Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5b/Santa_teresa_di_bernini_03.JPG>. Acesso em: 06 de mar. 2015.

Disponível em: <http://teresadejesus.carmelitas.pt/images/noticias/santa-teresa-de-avila.jpg>. Acesso em: 06 de mar. 2015.




[1] Alex Villas Boas – bacharel em Teologia pelo Instituto de Teologia João Paulo II de Sorocaba-SP, mestre em Teologia pela PUC-SP e doutorando em Teologia pela PUC-Rio. Professor, assessor teológico e coordenador do Departamento de Teologia Moral e Antropologia Teológica no Instituto João Paulo II e diretor de Estudos Teológicos do Seminário Arquidiocesano São Carlos Borromeu. Orientador dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola junto ao Centro de Juventude e Vocações Anchietanum e editor-chefe da Revista Teoliterária. Pesquisador da Alalite, Cemoroc, Lerte, Sobral e Soter. (PEDROSA-PÁDUA; CAMPOS, 2011, p. 227).